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A grande Depressão: teorias sobre sua origem



A crise de 29, conhecida mundialmente como “a grande depressão”, foi um acontecimento que gerou diversos impactos negativos nas economias das grandes potências mundiais da época. Essencialmente lembrada pela quebra da bolsa de valores de Nova York, a crise, que ocorreu entre 1929 - 1933, se tornou um marco na mudança do pensamento econômico vigente no período.


A partir disso, e buscando compreendê-la, várias questões foram levantadas a respeito do início da crise. Afinal, quais foram os motivos que levaram ao seu surgimento? Será possível explicar um evento tão marcante, e tão complexo, na história da economia mundial?


Diversas vertentes do pensamento econômico, assim como diversos autores, tentaram, durante quase os últimos 100 anos, encontrar a explicação para o advento da crise, e, como era de se esperar, diversas respostas diferentes foram encontradas. Duas, entretanto, se destacaram e geraram diversos debates entre economistas de diferentes épocas: a explicação Keynesiana e a visão monetarista de Milton Friedman. Evidenciaremos aqui, ambos os pontos de vista, tentando deixar o mais claro possível cada aspecto.


Antes de explicar os pontos de vista que serão analisados, é relevante entendermos o período que precedeu a crise.


1918 - 1929


Após a 1ª Guerra Mundial, iniciou-se uma nova dinâmica econômica, onde a Inglaterra deixa de ser a grande potência mundial e os EUA passa a assumir esse posto, com a responsabilidade de restabelecer o equilíbrio político e econômico no sistema internacional, que ficou estremecido diante da rivalidade entre os países, originada no período de guerra.


A expectativa imposta sobre os EUA, em relação ao protagonismo frente a recuperação pós Primeira Guerra, entretanto, não foi correspondida, devido aos valores protecionistas do país. Coube às autoridades econômicas dos outros países, direcionar sua confiança à recuperação e restabelecimento do padrão-ouro.


O padrão-ouro gerava tal expectativa devido ao sucesso econômico no período que precedeu a Primeira Guerra, todavia, outra realidade já havia sido estabelecida, e, dentro dessa nova dinâmica, o padrão já não era capaz de impor a estabilidade desejada.


Os principais motivos para a incapacidade do padrão estão diretamente relacionados com a diminuição da importância dada pelos EUA à defesa do câmbio, priorizando a reformulação da economia doméstica. Dessa forma, pode-se afirmar que o período pós 1914 - 1918, foi marcado por instabilidade política e econômica em alguns dos países que ditavam a dinâmica da economia mundial.


Porém, diferente desses países, os EUA, durante a década de 20, entrou em um grande e rápido processo de expansão econômica. Com o país sendo responsável por grande parte da comercialização dos produtos industrializados do mundo, a superioridade econômica em relação aos países europeus se tornava clara. O reflexo do crescimento econômico podia ser visualizado em parte da população do país, que passou a ter um padrão de vida melhor e a apreciar a acumulação de capital, sendo iniciado nesse período, um forte movimento de alocação de capital na bolsa de valores.


A evolução da economia americana, porém, ocorria de forma desordenada, com pouco controle dos agentes econômicos, e o governo acreditava que, devido à supremacia estabelecida frente aos países europeus, não havia possibilidade do surgimento de uma crise.


Nesse contexto, inicia-se, em 1929, a grande depressão. Com o sistema padrão-ouro em decadência e os EUA vivendo, em tese, um grande crescimento econômico.


Com base nessas informações, é possível, agora, explicarmos as origens da crise segundo as correntes anteriormente citadas. Vale ressaltar que essas não são as únicas explicações existentes para a crise, e outras vertentes econômicas também expuseram suas ideias. Neste texto, daremos prioridade às explicações e motivos keynesianos e monetaristas.


O pensamento Keynesiano e a grande depressão


Para compreender o pensamento Keynesiano a respeito da origem da grande depressão é necessário, antes de tudo, entender alguns conceitos e teorias propostas pelo formador dessa vertente, John Maynard Keynes.


Em seu livro, “Teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, mais especificamente, no capítulo 3, Keynes explica o princípio da demanda efetiva, que será de grande importância para entendermos sua visão sobre o que de fato aconteceu no surgimento da crise.


Keynes começa o capítulo explicando que existem dois tipos de custo: o custo de fatores, que são os gastos com pagamento aos fatores de produção e o custo de uso, que é o valor pago a outros empresários pelos bens comprados pela empresa, juntamente com a depreciação desses bens. Dessa forma, segundo o autor, o rendimento do empresário viria do excedente do valor da produção resultante relativamente ao custo de fatores e ao custo de uso.


Keynes então relata que o custo de fatores somado ao rendimento, ou lucro, é o rendimento total resultante do emprego oferecido pelo empresário. Sendo assim, para produzir um lucro máximo, o empresário deveria estabelecer um nível de emprego onde os gastos fossem compatíveis com o lucro desejado. De forma mais clara, o empresário geraria empregos suficientes para que a oferta produzida pela empresa possa dar a ele os maiores lucros.


O referido autor dá ao nível de produção o nome de oferta agregada. A oferta, então, para satisfazer os desejos do empresário, é uma função dependente do nível de empregos, pois a produção vai aumentar à medida que se aumenta o número de funcionários. Semelhantemente, o lucro da empresa também é uma função dependente do nível de emprego, já que, com o número de funcionários aumentando, ele diminui. Para essa função, Keynes dá o nome de Função da Demanda Agregada.


Aplicando a teoria na prática, quando o valor da demanda agregada é maior que o valor da oferta agregada, para a mesma quantidade de emprego, é gerado um estímulo ao empresário para que se contrate mais e, assim, aumente a produção. Dessa forma, o número de empregados aumenta, até que se chegue em um ponto de equilíbrio entre a oferta e a demanda. Esse ponto é chamado por Keynes de demanda efetiva.


Traçando o pensamento de Keynes objetivamente, podemos dizer que, quando o nível de emprego de uma sociedade aumentar, o rendimento nessa sociedade também aumentará, e, consequentemente, o consumo. Porém, o consumo não aumenta tanto quanto os rendimentos, necessitando de um volume investimento corrente para consumir a produção restante, e os empresários manterem o nível de emprego por eles estabelecido. Logo, se o volume de investimento corrente não é suficiente para absorver a produção, o nível de emprego irá diminuir, pois, a condição dos empregadores para manter a quantidade de emprego não está sendo satisfeita.


O autor ainda argumenta que em sociedades mais ricas e desenvolvidas, se torna mais difícil a absorção da produção restante, pois, com a acumulação de riqueza, as famílias tendem a se tornar mais aptas a poupar, além dos investimentos se tornarem menos atrativos. Logo, com investimento menor, é normal que a produção e a geração de emprego diminuam. A consequência para isso seria uma queda na produção e nos rendimentos dessa sociedade, até se chegar em um ponto onde a propensão ao consumo e investimento esteja compatível com o que é produzido.


A explicação keynesiana para a grande depressão passa diretamente por esses pontos, associados com as circunstâncias vividas na época. Como dito anteriormente, os EUA, local onde se iniciou a crise, vivia um momento de crescimento econômico e exportava grande quantidade dos produtos industrializados do mundo.


Os países europeus passavam certa dificuldade em se recuperar da Primeira Guerra Mundial, porém, a medida em que os países foram se recuperando, começaram a importar menos do país norte-americano. Todavia, os americanos acreditavam que isso não teria grande influência em sua economia, pois o país estava bem avançado em relação a seus pares. Entretanto, como explica a teoria Keynesiana da demanda efetiva, nos países mais ricos a população tende a optar pela poupança e acumulação de capital, pois, não se sente tão atraída pelos investimentos. Dessa forma, como a propensão ao consumo, somada ao investimento corrente, não era suficiente para suprir toda a oferta, o país entrou em uma grave crise de superprodução, iniciada em 1929, acompanhada da falência de várias empresas, bancos e uma elevada taxa de desemprego.


Além disso, Keynes atribui à quebra da bolsa de valores, parte da responsabilidade perante a crise instaurada. Segundo ele, a partir de tal acontecimento, houve uma onda de incerteza que se instalou no mercado econômico, o que foi fundamental para uma queda na confiança do americano perante as autoridades financeiras.


Torna-se importante constatar que a diminuição da demanda agregada poderia ser constatada antes da crise, porém, como o crescimento era desordenado e sem planejamento, as autoridades da época, pouco puderam fazer. Vale ressaltar, também, que a crise iniciada nos EUA se espalhou por todo o mundo, e afetou principalmente aqueles países que possuíam relações mais estreitas com os americanos, como o Canadá e a Inglaterra.


Friedman e o pensamento monetarista


Para Friedman, o ponto mais relevante para a crise não passa pelo problema da demanda efetiva, mas sim, pelo descaso do Federal Reserve System com a política monetária americana. Para ele, o ponto culminante da crise não teria sido o dia da quebra da bolsa de Nova York, mas sim um pouco antes, com a adoção de medidas monetárias por parte do FED, visando controlar a especulação que crescia na época. Todavia, ele não nega que o mercado de ações tenha tido um impacto negativo na crise, porém, reitera que o máximo que poderia ser causado por ele seria um pequeno prolongamento da crise, mas não todo o estrago por ela causado. Friedman diz:


O colapso do mercado de ações, por seu lado, teve alguns efeitos indiretos na confiança geral nos negócios e na disposição dos indivíduos de gastar, o que exerceu influência depressiva no curso dos negócios. Mas, por si próprios, tais efeitos não poderiam ter produzido um colapso na atividade econômica. Quando muito, teriam tornado a crise um pouco mais longa e um pouco mais severa do que as crises suaves que caracterizaram o crescimento da economia americana ao longo de sua história, não a teriam tornado tão catastrófica quanto foi. “

(Friedman, 1962, p. 53)


A crise, segundo Friedman, não aparentava nenhum aspecto diferente das demais que a antecederam, embora tenha sido mais profunda e prolongada que as demais, até outubro de 1930. Porém, em novembro do mesmo ano, tudo começa a desandar, e Friedman vê o FED mais uma vez como o grande responsável.


A crise no mercado de ações resultou em uma falta de confiança da população em relação a manter seu capital na mão de terceiros. Houve, entre 1929 e outubro de 1930, uma retirada de cerca de 3% do estoque de dinheiro. Nesse momento, Friedman considera que o FED já deveria ter atuado, repondo o estoque aos bancos, porém, ainda era possível relevar a falta de atitude do agente econômico e monetário americano.


Quando novembro de 1930 chega, vários bancos declaram falência, diminuindo ainda mais a confiança das pessoas nos bancos e gerando uma ida em massa da população aos bancos, com o intuito de retirar seus depósitos da poupança. A partir daí, houveram no período várias crises de liquidez corrente na economia, com falências bancárias ocorrendo com certa frequência, levando a novas idas aos bancos e afetando consideravelmente o estoque de dinheiro.


Cabe, aqui, uma explicação referente a forma como atuam os bancos e como a retirada em massa naquela época, associada à péssima atuação do FED no período, provocou graves problemas econômicos.


Quando se é depositado um determinado valor em uma conta bancária, parte do valor é depositado pelo banco em seu caixa, porém, a maior parte é emprestada novamente para outros indivíduos. Esses indivíduos podem retirar o valor do empréstimo ou deixar depositado em sua conta no banco. Dessa maneira, o mesmo processo é realizado pelo banco, mantendo uma parte em caixa e emprestando o restante. Podemos dizer que para cada real aplicado na poupança, o banco deve vários outros reais, pois, funcionam alavancados.


Quando ocorre algo parecido com o que houve nos EUA em 1930, uma ida desenfreada da população para retirar seus depósitos, os bancos são obrigados a pedir empréstimos ou vender títulos a outros bancos, a fim de conseguir o valor requerido pelos indivíduos. Os bancos que emprestam vão até outros bancos também pedir empréstimo, formando assim um círculo vicioso, que diminui ainda mais a confiança das pessoas nos bancos, formando novos círculos.


No contexto apresentado, o Federal Reserve System possuía a autonomia para auxiliar os bancos nessas situações de demanda generalizada por dinheiro, disponibilizando o valor necessário, com garantia em ativos dos bancos. Era esperado então que, em algum momento de crise, o FED atuasse com as medidas apresentadas, buscando controlar a crise que se instituía. Porém, Friedman afirma que não foi o que ocorreu:


“A primeira vez em que esses poderes se tornaram necessários, e, portanto, o primeiro teste de sua eficiência, ocorreu em novembro e dezembro de 1930, como resultado das falências bancárias já comentadas acima. O Reserve System falhou tristemente. Fez muito pouco ou nada para fornecer liquidez aos bancos, considerando aparentemente o fechamento de bancos como pouco importante. É conveniente enfatizar, contudo, que o fracasso do System foi um fracasso de vontade, e não de poder. Nessa ocasião, como nas que se seguiram, o System tinha amplos poderes para fornecer aos bancos o dinheiro que seus depositantes reclamavam. Se isto tivesse sido feito, o fechamento dos bancos teria sido evitado e a débâcle monetária não ocorreria.” (Friedman, 1962, p. 55)


Ainda de acordo com Friedman, entre agosto de 1929 e março de 1933, o estoque de dinheiro nos EUA caíram, aproximadamente, um terço. Caso houvesse uma intervenção maior do FED, evitando a queda de estoque, graves problemas da crise poderiam ter sido evitados, tal como, a queda de 50% da renda monetária e de 30% dos preços. Ou seja, Friedman afirma que com a atuação do Reserve System a crise não teria sido tão severa, além de ter sido bem mais curta. Contudo, ele ainda atribui parte da culpa ao erro de se colocar o poder, sobre toda uma nação, a apenas um pequeno grupo de homens. Friedman diz:


“A Grande Depressão nos Estados Unidos, longe de ser um sinal da instabilidade inerente do sistema de empresa privada, constitui testemunho de quanto mal pode ser causado por erros de um pequeno grupo de homens quando dispõem de vastos poderes sobre o sistema monetário de um país.”

(Friedman, 1962, p. 57)


É possível concluir que para Friedman, o maior responsável pela crise é o Federal Reserve System, porém, a culpa do FED passa essencialmente pelo poder atribuído àqueles que estavam no poder do órgão responsável pelo sistema monetário americano.


Considerações finais

Embora seja possível associar um pensamento a outro em alguns aspectos, ambos são pensamentos antagônicos, pois, a vertente Keynesiana afirma que a interferência do FED, auxiliando o estoque e a liquidez na economia, não seriam suficientes para manter o controle da crise. Dessa forma, a solução, para eles, seria o investimento público, promovendo a retomada econômica a partir dos gastos públicos em detrimento do investimento privado.

Todavia, vale ressaltar que a grande depressão não pode ser explicada por somente uma via, sendo ela provocada por diversos aspectos diferentes que, juntos, tornam mais claro os acontecimentos dos turbulentos anos em que tudo aconteceu. Logo, torna-se imprescindível a análise de diversas visões e campos de estudo, buscando compreender de forma mais clara todos os fatos apresentados.


Luan Victor França

Graduando em ciências econômicas / 2° período

Membro da Ufes finance desde 09/2020

Equipe de mídias


Referências:


KEYNES, J. M. A Teoria Geral do Juro, do Emprego e da Moeda. Londres: Palgreve Macmillan, 1936.


FRIEDMAN, M. Capitalismo e Liberdade. Chicago: University Chicago Press, 1962.


CRESPO, M. M. Interpretações da crise de 1929 no contexto econômico norte americano. Vitoria, 2018. 121 p. Dissertação (mestrado em economia) – Universidade federal do Espirito Santo.

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